Dona Antónia Adelaide Ferreira ou Ferreirinha, como foi carinhosamente apelidada, foi uma das grandes personalidades que marcaram a região vinícola do Douro e a história do Vinho do Porto. Nascida na Régua em 1811, numa família de viticultores e comerciantes de Vinho do Porto, foi uma mulher empreendedora, corajosa e visionária, que confrontou os poderosos da sua época, recusou títulos e honrarias, enfrentou pragas e epidemias, passou por várias mágoas pessoais e construiu uma das maiores fortunas da sua época nunca deixando de se preocupar com os mais necessitados.
Conheça a história inspiradora desta mulher fascinante que marcou uma época.
Antónia Adelaide Ferreira, nasceu em 1811 numa família abastada com créditos no cultivo da vinha para o Vinho do Porto.
Casou em 1834 com o seu primo direito António Bernardo de quem teve três filhos, António Bernardo, Maria de Assunção e Maria Virgínia que morreu em menina. O seu marido morreu cedo, vitimado pela vida boémia que levou bem conhecida nos círculos sociais do Porto, de Paris ou de Londres, e que os foi distanciando ao longo dos anos.
António Bernardo, morreu em Paris a 5 de novembro de 1844 contaminado por sífilis. Apesar da vida cosmopolita e boémia soube, no entanto, alargar os negócios familiares e, quando aos 33 anos, Dona Antónia enviuvou, tinha nas mãos uma fortuna considerável.
Deve-se ao seu primeiro marido a construção da Quinta do Vesúvio, fora dos limites da região demarcada, e que ainda hoje é uma das mais belas quintas do Douro. Foi também António Bernardo que em 1815 iniciou as exportações de Vinho do Porto para Inglaterra. Deixou-lhe ainda um espólio colossal de pipas de vinho.
Quando teve de assumir um papel de liderança, numa época onde as mulheres tinham na sociedade um papel secundarizado, a sua vocação de empresária despertou.
Os primeiros anos da década de 1840 não foram fáceis já que o mercado do Vinho do Porto sofreu uma forte retração e a partir de 1852 o oídio, vindo da América, assola as vinhas durienses reduzindo drasticamente a produção.
O ano de 1868, já o oídio estava a ser combatido, é um ano excedentário. Nesse ano os produtores ficaram a braços com produções que não conseguiam vender apesar da excelente qualidade do vinho. Para ajudar os produtores e viticultores, e talvez pressentindo uma oportunidade de negócio futuro, Dona Antónia comprou grandes quantidades de vinho a um preço baixo já que todos queriam vender.
A partir de 1870 uma nova praga apareceu também vinda da América – a filoxera (Phylloxera Vastatrix). Este inseto foi devastador para as vinhas de toda a Europa, que ainda não se encontravam nas melhores condições por causa do oídio. Em 30 anos o vale do belo Douro vinhateiro fica abandonado com milhares de produtores a entrarem em falência.
Dona Antónia teve de reagir e foi muito astuta na forma como geriu as crises e as transformou em oportunidades conseguindo aumentar espetacularmente a sua fortuna. Quando a filoxera aniquilou a capacidade produtiva do Douro e havia escassez, Dona Antónia conseguiu realizar fabulosas mais-valias com os enormes stocks de vinho que conservava. Também vendeu vários bens acumulados pelo seu marido, desde palácios a ações, para os investir no Douro.
A partir de 1864 investiu no extremo leste do vale do Douro, área que estava fora do perímetro da Região Demarcada instituída pelo governo do Marquês de Pombal. Em 1964 comprou a Quinta do Arnozelo, em 1869 a Quinta do Mileu, em 1872 o Casal de Moncorvo e em 1877 a Quinta da Coalheira.
Aberta á inovação e á modernidade desloca-se a Inglaterra para se inteirar sobre os meios mais eficazes para combater a filoxera lutando com os sucessivos governos portugueses que não apoiam a viticultura. De regresso a Portugal adota novas técnicas para a produção de vinho e investe em novas plantações de vinhas utilizando os bacelos americanos, imunes à filoxera. Esta técnica perdurará até aos dias de hoje.
Tentando que as quintas do Douro não caíssem nas mãos dos ingleses, Dona Antónia adquiriu-as e, mais tarde, devolveu-as por um preço simbólico. Nalguns casos chegou mesmo a doá-las aos antigos proprietários.
A sua vida pessoal sofria, no entanto, alguns revezes. O seu filho segue pela mesma vida boémia que o seu falecido pai, reclamando parte da sua herança paterna, desbaratando-a e acumulando dívidas. António Bernardo, havia casado com a filha de um capitalista brasileiro do Porto, contra vontade da mãe, que acabou por ter de pagar a educação dos netos e por dar suporte financeiro ao filho.
A sua filha foi protagonista involuntária de uma história que escandalizou a sociedade e deliciou a imprensa da época. Maria de Assunção foi pedida em casamento pelo Duque do Saldanha em nome do seu filho. Dona Antónia recusou com a justificação da filha ser demasiado jovem pois contava apenas 11 anos. A outra parte da história é digna de uma novela já que alegadamente terá havido uma tentativa de rapto com a conivência de António Bernardo e da mãe de Dona Antónia. Os defensores do Duque negam e dizem que apenas queriam pedir a mão de sua filha, mas, depois deste episódio, com medo de que a façanha se repetisse, Dona Antónia refugia-se em Inglaterra com a sua filha e o administrador das suas propriedades. Primeiro segue para Lamego, depois para Vila Real, onde se encontra com José da Silva Torres. e daí ruma de barco com destino a Londres. Antes da fuga publica um “Protesto” contra o Duque de Saldanha na imprensa portuense enfrentando publicamente o poderoso governante.
Em Londres, a 20 de setembro de 1856, Dona Antónia casa com José da Silva Torres regressando de imediato a Portugal.
O casal passa a fazer visitas regulares ao Porto e passa grandes temporadas em Lisboa onde adquire o palácio do Calhariz. O casamento da filha de Dona Antónia com o filho do marquês do Loulé, neto de D. João VI, ligam-nos à casa real e Silva Torres envereda pela política. O casal passa a receber altas figuras da aristocracia e do mundo dos negócios.
O casamento de Maria de Assunção também trará dissabores a Dona Antónia pois tanto a sua filha como o seu genro enveredam por uma vida de luxo e de gastos exorbitantes levando Dona Antónia a intervir.
Uma das míticas histórias que envolve Dona Antónia a um dos aristocratas que frequentavam a sua casa, é a do naufrágio responsável pela morte do Barão de Forrester.
A 12 de Maio de 1861, o Barão de Forrester, de quem se diz que foi amante, foi visitar Dona Antónia à mais famosa das suas quintas, a Quinta do Vesúvio. O Barão ofereceu-se para a acompanhar, e á sua comitiva, até à Régua para onde ia partir nesse dia, e que distava 56 Kms. A tragédia ocorre no sítio mais perigoso do rio, o Cachão da Valeira. Constituído por um estrangulamento do rio Douro entre enormes fragas abruptas que faziam precipitar as águas numa queda de água de 7 metros de altura, formava inferiormente um poço que impedia a navegabilidade segura do rio Douro. Na altura a força da torrente era tal que o barco naufragou e todos os ocupantes foram atirados para as águas revoltas do rio.
Dona Antónia e todas as senhoras da comitiva escaparam devido às enormes saias de balão que se usavam à época, e que as fizeram flutuar até à margem. Faleceram dois criados e o Barão de Forrester cujo corpo nunca apareceu. Dizem que foi puxado para o fundo pelo pesado cinto que usava carregado de libras de ouro.
No ano de 1877 que o seu segundo marido, Francisco José da Silva Torres, arrematou em nome de Dona Antónia cerca de 300 hectares de terras bravias no Monte Meão pertencentes à Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Côa.
Esta operação deixou perplexos os principais colaboradores pois tratava-se de terras selvagens que ficavam em zonas remotas sem estradas para lá chegar. O único meio de transporte possível era de barco numa viagem perigosa que demorava cerca de 12 dias a partir do Porto. Mais uma vez Dona Antónia demonstrou a sua visão empresarial. Investiu na linha férrea que só tinha chegado a Penafiel, que distava 30 Km do Porto.
O seu segundo marido faleceria em 1880, mas a sua tenacidade e o seu profundo amor pelo Douro prevaleceram.
Quando a linha férrea chegou a Pocinho, dez anos depois, foi possível iniciar um “grandioso projeto” como dizia António José Claro da Fonseca, nomeado por Dona Antónia como seu gestor. Fazer da batizada Quinta do Vale Meão “a primeira propriedade do Douro”.
Durante oito anos foram desbravadas terras, plantadas vinhas e olivais, construídas duas adegas, a casa principal e numerosas edifícios incluindo um pequeno hospital, uma escola e duas capelas. A obra terminou em 1895, mas Dona Antónia pouco desfrutou pois morreu de uma forma imprevista em março de 1896 deixando um incrível legado material.
O seu cortejo fúnebre adquiriu uma dimensão extraordinária com os durienses a reunirem-se numa multidão imensa para prestarem a derradeira homenagem a esta mulher ímpar que defendeu o Douro e as suas gentes, e que nem durante as piores crises esqueceu os mais frágeis.
Em 1855, quando o Douro foi assolado por uma epidemia de cólera, escreveu:
“cada um na sua terra deve fazer tudo o que seja para bem da humanidade”.
E este princípio foi mantido ao longo da sua vida. Durante todos os processos de compra e venda das suas quintas investiu sempre em obras de contexto social como hospitais, igrejas, escolas e quartéis de bombeiros com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos durienses motivando a fixação da população. Por tudo isto a memória de Dona Antónia é venerada no Douro até aos dias de hoje.
Após a morte de Dona Antónia, os seus herdeiros constituíram em 1898 uma sociedade anónima com o nome de Companhia Agrícola e Comercial dos Vinhos do Porto, conhecida como Casa Ferreirinha cujo objetivo era produzir, envelhecer e comercializar os vinhos provenientes das uvas das diferentes quintas da família. Em 1987 foi vendida à Sogrape, a maior empresa de vinhos portuguesa. Algumas quintas não entraram no negócio e foram vendidas a particulares, mas outras ainda permanecem nas mãos dos seus descendentes como por exemplo a Quinta do Vale Meão e a Quinta do Valado. A icónica Quinta do Vesúvio foi vendida ao grupo Symington que detém várias marcas de referência de Vinho do Porto.